Texto que eu publiquei no Boteco do JB:
Cedo tive minha iniciação alcoólica. Meu pai molhava minha chupeta no copo de cerveja e minha avó não achava mau as crianças beberem um tantinho assim de vinho.
O drinque da minha adolescência foi porradinha: três dedos da gloriosa vodca Baikal em meio copo de soda limonada vagabunda. Parece uma receita simples mas exige coragem, porque a magia da mistura só se completa com uma boa joelhada no copo, pra fazer a bebida ferver.
E no tédio das noites do interior, acompanhada da Baikal, com o joelho roxo de tanto porrar copos de requeijão, eu sonhava com a sofisticação alcoólica dos bares de São Paulo, a cidade que nunca dorme, o lugar pra se comer e beber de tudo e a qualquer hora, diziam na televisão.
Os anos se passaram, saí da roça e ampliei meus conhecimentos etílicos. Aprendi até o que é um Bellini, e tomei vários bons, inclusive na cidade em que foi inventado. E numa madrugada de tédio em São Paulo, há alguns meses atrás, resolvi sair em busca de um Bellini, finalmente participar da sofisticada boêmia paulistana.
Mas caipira ingênua que às vezes ainda sou, resolvi dar uma segunda chance ao Paris 6. Quase 1 da manhã, poucas pessoas. Mesmo assim a bebida demorou tanto que pude assistir à refeição inteira da mesa vizinha. Até que foi divertido adivinhar se o que tinham pedido era um filé de truta Vanderlei Luxemburgo ou um salmão Edson Celulari. Sim, os pratos são batizados com nomes de famosos. Mas se o Bellini leva o nome de um artista italiano, por que não uma coxinha de rã a Zilú Camargo?
Distraída com rã da Zilú não percebi o garçom tinha servido a minha bebida. Fiquei surpresa ao encontrá-la ali na minha mesa, toda rosa, era um Bellini rosa-choque, da cor do batom da moça que comia o que parecia ser um entrecôte a Ronnie Von. Alguns Bellinis levam um pouco de cereja, é verdade, e já vi alguns mais rosados, outros mais amarelinhos, mas nenhum naquele tom fosforescente.
Bom, pra quem passou anos tomando vodca Baikal, por que não um Bellini da Barbie? Porque o gosto era horrível, sintético como o gosto dos remédios e mais enjoativo que o perfume daquela senhora da minha frente, que se deliciava com um filé a Dalton Vigh.
O garçom foi solidário, também achou suspeita a cor da bebida e levou pra averiguar. Voltou 20 minutos depois pra me devolver a mesma taça: “Hoje o nosso Bellini está assim mesmo.” Hoje?! “É. Só tem champanhe rosé. E o pêssego acabou, usamos essência.” Me espantei com tamanha licença poética. Aquilo não era uma releitura, era uma falsificação criminosa. Um Bellini made in Paraguay. Em pleno Paris 6, um Bellini do Paraguay! Essência de pêssego? “É. Se a senhora quiser peço pra ele colocar mais.” Fui obrigada a recusar tamanha gentileza.
Sóbria, tive que encarar mais bom tempo de espera até conseguir pagar a conta. É verdade que me embriaguei um pouco lendo as mensagens de artistas espalhados pelas paredes. E não é que aqueles autógrafos todos continham uma revelação? Eles me fizeram entender que o Paris 6 nada mais é do que uma cantina, um parente próximo do Lellis, só que tristemente fantasiado de bistrô parisiense.
Naquela noite descobri também o quanto eram dignas as minhas noitadas de vodca e porradinha e fiquei com saudades da simplicidade alcoólica do interior, longe das coqueteleiras de prata, das dicas dos enólogos e da criatividade dos mixologistas.